Bebedeira na adolescência pode afetar controle de impulsos e comportamento na vida adulta

Estudo aponta que o consumo excessivo de álcool durante uma fase de intenso desenvolvimento cerebral pode deixar efeitos comportamentais duradouros

Foto: Reprodução

O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode estar relacionado a alterações no comportamento que permanecem até a vida adulta. Pesquisas recentes apontam que a exposição precoce à bebida pode interferir em mecanismos do cérebro ligados ao controle dos impulsos, à tomada de decisões e à busca por situações de risco.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, com apoio da Fapesp, avaliou os efeitos da exposição ao álcool em camundongos durante a adolescência. Os resultados indicaram que episódios de consumo elevado nessa fase foram associados, posteriormente, a maior comportamento de risco e aumento do consumo de álcool na vida adulta.

Cérebro ainda está em desenvolvimento

A adolescência é uma fase marcada por importantes mudanças no sistema nervoso. Entre as áreas que ainda estão amadurecendo está o córtex pré-frontal, região relacionada ao planejamento, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos.

Por isso, a exposição ao álcool durante esse período pode ter efeitos diferentes daqueles observados em um cérebro adulto. Uma revisão publicada na Nature Reviews Neuroscience destaca que o consumo pesado de álcool na adolescência está associado a consequências neurais e cognitivas e que parte dessas diferenças pode permanecer ao longo do desenvolvimento.

Controle dos impulsos

Outro estudo longitudinal, que acompanhou adolescentes até a idade adulta, encontrou associação entre o consumo pesado de álcool durante a adolescência e mudanças no comportamento impulsivo em determinados grupos.

Os pesquisadores acompanharam 503 meninos desde a infância até aproximadamente os 24 ou 25 anos. Entre aqueles que apresentavam determinados padrões de impulsividade, o consumo pesado de álcool foi seguido por aumento da impulsividade no período posterior.

Mais recentemente, uma pesquisa preliminar também encontrou associação entre histórico de consumo excessivo de álcool na adolescência e maior dificuldade, na vida adulta, para abandonar respostas habituais e adotar comportamentos orientados por objetivos. Os próprios pesquisadores ressaltam que ainda são necessários estudos longitudinais para determinar se essas alterações são consequências diretas do álcool ou se alguns fatores anteriores já aumentavam o risco.

Nem todo comportamento é causado pelo álcool

Os especialistas alertam que a relação entre álcool e comportamento é complexa. Impulsividade, ambiente familiar, saúde mental, condições sociais e outros fatores também podem influenciar o início e a continuidade do consumo.

Por isso, os estudos não permitem afirmar que todo adolescente que bebe excessivamente terá problemas de controle de impulsos na vida adulta.

A Organização Mundial da Saúde, no entanto, destaca que o consumo de álcool entre adolescentes está associado a alterações neurocognitivas e a problemas comportamentais, emocionais, sociais e acadêmicos posteriores.

Prevenção começa cedo

Além dos possíveis efeitos sobre o desenvolvimento cerebral, o consumo precoce de álcool está relacionado a maior risco de intoxicação, acidentes, violência e outros problemas de saúde.

A orientação é que pais, responsáveis, escolas e profissionais de saúde conversem com adolescentes sobre os riscos do álcool e estejam atentos a mudanças de comportamento, queda no rendimento escolar e consumo frequente ou excessivo.

No Brasil, a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos é proibida. A prevenção e o acompanhamento precoce são importantes para reduzir os riscos associados ao consumo de álcool durante uma fase em que o cérebro ainda está em desenvolvimento.

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