Lendas transformam pôr do sol em momento de conexão espiritual na cidade mais indígena do Brasil

Entre os Tukano e os Baniwa que vivem em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, duas lendas diferentes dão sentido ao momento em que o sol se despede do dia, transformando o fenômeno em um ritual sagrado.

 Foto: Lucas Macedo/g1 AM

O pôr do sol em São Gabriel da Cachoeira, às margens do Rio Negro, no Amazonas, é mais do que um espetáculo de cores para os povos originários da região. Entre os Tukano e os Baniwa, duas lendas diferentes dão sentido ao momento em que o sol se despede do dia, transformando o fenômeno natural em um ritual sagrado.

A ligação entre as visões ancestrais com a cultura do município amazonense se justifica: São Gabriel da Cachoeira é a cidade mais indígena do Brasil, segundo o IBGE, com mais de 90% da população sendo pertencente a uma dentre vinte etnias. Para a maior parte dos habitantes, o pôr do sol segue sendo um dos símbolos mais fortes da união entre mito e realidade.

O céu tingido de laranja, vermelho e roxo reflete nas águas escuras do rio e impressiona moradores e turistas. Mas, para os povos indígenas, o espetáculo vai além da estética: é um momento de respeito e silêncio, em que se reafirma a conexão espiritual com os antepassados.

De acordo com a Secretaria de Cultura do Município, na tradição Tukano, o sol mergulha nas águas do Rio Negro para descansar e renovar suas forças, sendo acompanhado por espíritos que garantem a continuidade da vida.

A visão da etnia sobre o fenômeno natural já foi alvo de estudos internacionais. O antropólogo britânico Stephen Hugh-Jones, esteve na Amazônia em 1979, e passou um tempo com o povo Tukano. A experiência resultou na publicação sobre a lenda no estudo ‘From the Milk River: Spatial and Temporal Processes in Northwest Amazonia’ (Do Milk River: Processos Espaciais e Temporais no Noroeste da Amazônia, em tradução literal).

Já para os Baniwa, o pôr do sol simboliza a passagem do tempo e a harmonia entre os mundos, com os ancestrais guiando o astro em sua travessia para assegurar equilíbrio entre natureza e humanidade.

O pesquisador americano Robin Wright, especialista na cosmologia Baniwa, destacou no estudo “História Indígena e do indigenismo no Alto Rio Negro”, a crença indígena sobre o fenômeno.

Guias locais costumam compartilhar essas histórias durante passeios de barco, destacando a importância da preservação cultural e ambiental. Ambas as tradições reforçam que o pôr do sol é mais do que um fenômeno natural — é um momento sagrado de conexão entre mundos.

Por Lucas Macedo, g1 AM

Fonte: D1 AM

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