Violência psicológica lidera casos de violência contra mulheres em Manaus

Foto: Reprodução

A violência psicológica é a forma mais recorrente de agressão contra mulheres atendidas pelos Juizados Maria da Penha em Manaus, representando 29,2% dos casos registrados em 2025. Em seguida aparecem a violência moral (28,9%) e a física (21,7%). 

Os dados revelam um padrão preocupante: a maioria das vítimas é formada por mulheres negras (79,4%), com idade entre 18 e 52 anos (84,3%), com filhos e em situação de vulnerabilidade econômica — cerca de 82,6% sobrevivem com até um salário mínimo ou sem renda.

O perfil dos autores também chama atenção. A maior parte dos homens tem entre 25 e 45 anos (61,8%), mantém ou manteve relação íntima com a vítima (80,1%) e, em muitos casos, não reconhece a própria conduta violenta: 46,8% negam a agressão e 39,7% atribuem à mulher a responsabilidade pelo episódio. 

Os dados integram levantamento dos 1.º, 3.º, 4.º e 6.º Juizados Especializados no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Comarca de Manaus.

A pesquisa foi construída a partir de questionários aplicados a 391 mulheres e 126 homens atendidos por equipes de Serviço Social e Psicologia ao longo de 2025. Os resultados estão disponíveis na página da Ouvidoria da Mulher do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM).

Segundo a ouvidora da Mulher e coordenadora da Cevid/TJAM, desembargadora Maria das Graças Pessôa Figueiredo, compreender esse perfil é essencial para enfrentar o problema. 

“Ao compreendermos o perfil real de quem recorre ao Judiciário, fortalecemos as políticas públicas e a nossa rede de proteção, garantindo que o acolhimento e a prestação jurisdicional caminhem lado a lado no combate efetivo à violência de gênero”, afirmou.

Violência invisível e persistente

Os dados indicam que a violência doméstica, em muitos casos, não começa com agressões físicas. Humilhações, ameaças, manipulação emocional e desvalorização são recorrentes e dificultam a identificação da violência pelas vítimas, retardando a busca por ajuda.

Além disso, os casos se concentram principalmente nas zonas Norte (32,1%) e Leste (19,5%) de Manaus, regiões marcadas por maior densidade populacional e desafios socioeconômicos. Outro dado relevante é que 11,4% das mulheres atendidas possuem algum tipo de deficiência.

Apesar da forte presença da vulnerabilidade econômica, o estudo mostra que a violência doméstica atravessa diferentes níveis de escolaridade: 41,4% das vítimas têm ensino médio completo e cerca de 29% chegaram ao ensino superior ou à pós-graduação.

Dependência financeira e filhos dificultam rompimento

A dependência econômica aparece como um dos principais fatores de permanência no ciclo de violência. Apenas 13,4% das mulheres possuem emprego formal, enquanto 18,5% estão desempregadas e outras 18,5% dependem de programas de transferência de renda.

A presença de filhos também pesa nas decisões. Muitas mulheres permanecem na relação por receio de impactar os filhos ou por falta de condições de sustento. Entre aquelas que já desistiram de denunciar, 17% apontaram a preservação da família como motivo, enquanto 11,3% citaram medo do agressor e 7,7% dependência financeira.

Relações íntimas concentram agressões

Os dados confirmam que a violência ocorre majoritariamente dentro de relações afetivas. Ex-companheiros (38,9%) e ex-maridos (18,1%) lideram como autores, evidenciando que o fim do relacionamento não encerra necessariamente o ciclo de violência.

Fatores como ciúme, controle e não aceitação da separação estão presentes em 46,7% dos casos, reforçando o caráter estrutural do problema.

Perfil dos agressores

Entre os homens analisados, além da predominância na faixa dos 25 aos 45 anos, chama atenção o fato de que 79,4% têm filhos e 58,7% se declararam solteiros no momento do atendimento. Em termos socioeconômicos, 64,1% possuem renda própria, sendo 32,8% com trabalho formal e 21,4% informal.

Mesmo assim, há resistência em reconhecer comportamentos abusivos: 68,3% afirmaram não ser ciumentos e 88,9% disseram não ser machistas.

Novo levantamento reforça desigualdades

Os dados do 3.º e 6.º Juizados, com base em 128 mulheres, confirmam o padrão: vítimas majoritariamente entre 18 e 44 anos, com filhos e inserção precária no mercado de trabalho.

A predominância racial também se repete: 72,7% das mulheres se declararam pardas e 9,4% pretas. O recorte evidencia a interseção entre violência de gênero e desigualdade racial.

A assistente social Rafaela Pereira Ramos destaca que essas múltiplas vulnerabilidades agravam o cenário. “A violência doméstica incide de forma desigual sobre as mulheres, sendo atravessada por marcadores como idade, raça, escolaridade e renda, que podem ampliar a dependência econômica e o isolamento social”, explicou.

Dados como ferramenta de enfrentamento

Para a assistente social Celi Cristina Nunes Cavalcante, os números ajudam a transformar a realidade institucional. “Os infográficos que publicamos não são apenas estatísticas, são um recorte de histórias reais que fundamentam nossa busca por respostas mais assertivas”, disse.

Segundo ela, o levantamento permite transformar dados em estratégia para fortalecer políticas públicas e ampliar a rede de proteção às vítimas.

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