Com o avanço da frota e a alta demanda por componentes no mercado clandestino, veículos eletrificados entraram de vez no radar do crime organizado; furtos sem violência lideram as estatísticas.

O crescimento acelerado das vendas de veículos eletrificados no Brasil trouxe um efeito colateral direto para a segurança pública. Um levantamento recente da empresa de rastreamento veicular Ituran, baseado em dados oficiais de segurança, revelou que os registros de roubos e furtos de modelos 100% elétricos e híbridos dispararam no país, com o volume total de ocorrências triplicando — um salto de 200%.
Entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizados 186 casos, contra 62 registros no mesmo período do ano anterior.
Migração do roubo para o furto eletrônico
Um dos dados mais expressivos do levantamento é a mudança de perfil da criminalidade. Enquanto os roubos à mão armada (com abordagem direta à vítima) recuaram levemente de 37 para 31 casos, os furtos saltaram de 25 para 155 ocorrências — respondendo por mais de 83% do total registrado.
Especialistas em segurança e telemetria apontam que os criminosos adaptaram suas ferramentas: em vez de abordar o condutor no trânsito, quadrilhas especializadas têm utilizado equipamentos eletrônicos para burlar chaves presenciais e sistemas digitais de ignição, levando o carro estacionado na rua em poucos segundos e sem alarde.
Os modelos mais visados
A mira dos criminosos acompanha a popularidade nas concessionárias. Os dois modelos mais vendidos do segmento no país concentram cerca de um terço de todas as ocorrências registradas:
- BYD Dolphin: 1º lugar do ranking, com 32 ocorrências (17,2% do total);
- Toyota Corolla Cross (híbrido): 2º lugar, com 30 casos registrados (16,13%).
Veículos com dois a cinco anos de uso foram os alvos mais frequentes (cerca de 48% dos registros), seguidos por automóveis com até dois anos de fabricação (33%).
Por que os elétricos viraram alvo?
Três fatores principais explicam a corrida do crime para esse segmento:
- Mercado de peças de reposição: Com mais de 35 mil veículos eletrificados sendo emplacados por mês no Brasil entre híbridos e elétricos puros, a escassez ou os custos elevados de peças originais de funilaria, sensores e acabamentos fomentam o desmanche clandestino.
- O valor das baterias e do cobre: As baterias de alta tensão — componentes que podem custar até metade do valor do veículo — viraram ativos valiosos no mercado paralelo. Além do carro inteiro, furtos de cabos de carregamento em pontos públicos para extração de cobre também se multiplicaram.
- Concentração geográfica: A cidade de São Paulo responde por cerca de 74% de todos os registros do estado, com bairros como Vila Mariana e Carrão liderando a lista de pontos críticos.
Reflexo direto no bolso do consumidor
A onda de crimes já começou a mexer nos custos do setor financeiro. Corretoras e seguradoras vêm revendo as tabelas de risco para apólices de modelos eletrificados, com reajustes no valor dos prêmios de seguro acima da média aplicada aos carros tradicionais a combustão.
Para proprietários e motoristas que pretendem adquirir um elétrico, analistas recomendam atenção redobrada: além de avaliar a autonomia e os custos de recarga, é imprescindível cotar o seguro antecipadamente e priorizar o uso de vagas fechadas e rastreadores dedicados.

