
O calor extremo associado ao fenômeno do Super El Niño pode causar até 13,3 mil mortes adicionais no Brasil. A estimativa consta em relatório do Climate Impact Lab, consórcio científico ligado à Universidade de Chicago, que mapeou os impactos da elevação atípica das temperaturas globais entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.
O levantamento coloca o Brasil como o país com o maior número de óbitos projetados em toda a América Latina e o quinto no ranking mundial, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia. Globalmente, o estudo prevê mais de 451 mil mortes excedentes em razão do estresse térmico provocado pelo fenômeno.
Norte e Nordeste concentram os maiores riscos
As regiões Norte e Nordeste concentram as estimativas mais críticas de fatalidades decorrentes do choque térmico e do agravamento de comorbidades cardiorrespiratórias:
- Pará: cerca de 2,3 mil mortes adicionais projetadas;
- Maranhão: aproximadamente 1,3 mil óbitos;
- Amazonas: cerca de 1,2 mil mortes adicionais;
- Bahia: cerca de 1,2 mil óbitos.
O relatório ressalta que o modelo considera apenas os efeitos diretos da temperatura extrema sobre o organismo humano. Consequências secundárias do El Niño — como secas históricas, queima de biomassa e fumaça de queimadas ou inundações — não entraram nessa conta e podem elevar ainda mais o impacto sanitário.
Metodologia e “cartão-postal do futuro”
Para chegar às projeções, os pesquisadores cruzaram dados climáticos históricos (1996 a 2025) com microdados de mortalidade, densidade populacional, nível de renda e capacidade local de infraestrutura e refrigeração.
O resultado não representa um número fatalista e imutável, mas sim uma estimativa de mortes excedentes caso não sejam adotadas políticas emergenciais de adaptação. Os autores alertam que a intensidade do atual Super El Niño funciona como um “cartão-postal do futuro”, antecipando as ondas de calor que devem se tornar o padrão nas próximas duas décadas com o avanço do aquecimento global.
Recomendações urgentes de adaptação
Os pesquisadores reforçam que a maior parte dessas fatalidades pode ser evitada com a mobilização prévia dos serviços públicos. Entre as ações prioritárias sugeridas estão:
- Sistemas de alerta precoce: avisos meteorológicos direcionados às equipes do Sistema Único de Saúde (SUS) e à Defesa Civil;
- Pontos de hidratação e refúgios térmicos: instalação de áreas públicas climatizadas em centros urbanos para acolhimento de pessoas vulneráveis e em situação de rua;
- Proteção laboral: adequação de jornadas e protocolos de descanso para trabalhadores ao ar livre (construção civil, limpeza urbana e agricultura);
- Monitoramento de idosos: busca ativa e orientação para grupos prioritários, hipertensos e portadores de doenças renais crônicas.


