Bancos centrais do Brasil e da Europa avaliam interligar Pix com TIPS

Iniciativa busca baratear remessas, acelerar transferências internacionais e reduzir a dependência de intermediários financeiros tradicionais.

Foto: Reprodução

O Banco Central do Brasil (BCB) e o Banco Central Europeu (BCE) iniciaram formalmente uma fase de avaliação conjunta para analisar a viabilidade técnica, operacional e regulatória de conectar o Pix ao TIPS (TARGET Instant Payment Settlement), o sistema europeu de liquidação de pagamentos instantâneos.

A proposta visa criar uma ponte direta entre as duas infraestruturas financeiras, permitindo que cidadãos e empresas façam remessas entre o Brasil e os países da zona do euro em questão de segundos e com custos substancialmente menores do que os cobrados hoje pela rede bancária tradicional.

O que é o TIPS?

Lançado pelo BCE no final de 2018, o TIPS opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, liquidando operações em euros (e em outras moedas de bancos centrais participantes) em poucos segundos. Enquanto o Pix revolucionou os pagamentos domésticos no Brasil desde 2020, o TIPS exerce papel análogo na Europa, garantindo liquidação imediata e irrevogável entre contas bancárias no continente.

O que muda para consumidores e empresas?

Atualmente, enviar dinheiro entre o Brasil e a Europa exige o uso de intermediários, redes como a SWIFT ou plataformas especializadas de câmbio. Esse modelo costuma envolver:

  • Prazos maiores: Liquidações que podem levar de algumas horas a vários dias úteis.
  • Custos em cascata: Tarifas de envio, taxas de recebimento e margens elevadas sobre a cotação cambial (spread).
  • Falta de transparência: Dificuldade de acompanhar o status exato da transação em tempo real.

Com a eventual conexão direta entre Pix e TIPS, a expectativa é que o usuário possa iniciar uma transferência em reais pelo aplicativo do banco brasileiro e o destinatário na Europa receba o valor em euros de forma quase imediata em sua conta local — e vice-versa.

Desafios técnicos e regulatórios em análise

Os estudos de viabilidade conduzidos pelo BCB e pelo BCE concentram-se em pontos críticos para que a conexão seja segura e eficiente:

  1. Conversão cambial em tempo real: Definição de como as taxas de câmbio serão cotadas e liquidadas no momento exato do envio.
  2. Conformidade e combate a crimes financeiros: Harmonização de regras de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PLD), combate ao financiamento do terrorismo (CFT) e cumprimento de sanções internacionais.
  3. Interoperabilidade técnica: Padronização de mensagens financeiras (como o protocolo ISO 20022, já adotado por ambos os sistemas) e integração de APIs entre os bancos centrais.
  4. Governança e compensação: Estabelecimento de regras claras de liquidação jurídica e financeira para disputas, cancelamentos ou falhas de comunicação entre redes.

Tendência global de integração de pagamentos

O projeto entre Brasil e Europa reflete uma diretriz do G20 e do Banco de Compensações Internacionais (BIS) para aprimorar os pagamentos transfronteiriços (cross-border payments).

Modelos semelhantes já operam com sucesso em outras regiões — a exemplo da integração entre o PayNow (Singapura) e o PromptPay (Tailândia), além de projetos multilaterais como o Project Nexus, do BIS. A aproximação entre o ecossistema brasileiro e o bloco europeu representa o passo mais ambicioso do Banco Central na internacionalização do Pix até o momento.

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